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Lições aprendidas após falhar no tuit.in

em:26 de janeiro de 2012

tuitinPra quem não sabe o tuit.in foi a minha mais recente tentativa de empreender na web e que no último dezembro encerrou suas operações. A história começou em 2009 quando observei um movimentação no mercado gringo de uma ideia que parecia interessante. Algumas startups começavam a demonstrar que iriam lançar em breve um serviço de análise e monitoramento de mídias sociais de forma escalável. Como eu já havia desenvolvido uma boa bagagem de Business Intelligence e tinha um conhecimento razoável de mídias sociais achei uma ideia interessante de se trazer para o Brasil. Porém, não podia executar no momento pois estava finalizando a minha graduação e estagiando na época. Segurei até março de 2010, quando eu, Rodrigo Lobo e Bruno Marques começamos a trabalhar na ideia. Hoje percebo que a formação da equipe já foi uma primeira lição aprendida:

Com uma equipe de mesma base de formação fica mais difícil
Nós 3 temos a mesma formação que é a de computação, mas numa nova empresa web, além de desenvolvimento você vai precisar de habilidades de design, marketing, negociações e parcerias, criação de produto, gerenciamento, dentre tantas outras para o negócio funcionar. É natural que você escolha seus sócios dentre seu círculo de amizades mas é importante perceber que é preciso preencher várias lacunas de áreas de conhecimento para iniciar uma empresa. Os sócios precisam de disposição/vocação/tempo para preencher essas lacunas ou dinheiro disponível para investir e solucionar os pontos em aberto.

Começamos escolhendo pelo nome: tuit.in, que também seria o endereço do nosso encurtador, que ajudaria com o marketing e seria a parte gratuita dos nossos serviços. Além disso começamos com a ideia de fazer um cliente de Twitter desktop que oferecesse gráficos e relatórios. Nesse ponto segue a segunda lição:

Estratégia de marketing não pode ser maior que as necessidades dos clientes
As escolhas do encurtador e de começar como um cliente desktop foram pensadas como marketing e como uma maneira de espalhar, escalar e viralizar as nossas soluções. Isso acabou nos atrapalhando pois ficamos mais conhecidos pelo nosso encurtador do que pelos nossos serviços e isso atrapalhava a venda dos nossos serviços. A estratégia de marketing funcionou muito bem, mas apenas para as funcionalidades gratuitas. No entanto, não estávamos atendendo as necessidades dos nossos público alvo da melhor forma.

No final de 2010 colocamos no ar para ser baixada a nossa solução desktop e logo percebemos que haviam problemas de incompatibilidade e configurações e resolvemos deixar de forma gratuita. No início do ano seguinte fomos selecionados para participar do Campuseiros Empreendem na Campus Party, ficamos próximos de ir a final do evento, aprendemos bastante com os feedbacks dos mentores e conseguimos visibilidade: meia página em um jornal impresso, citação em outro jornal, vídeo no ResultsON, além de várias outras citações em sites de notícias e startups. Escolher bons eventos para participar é uma boa maneira de conseguir mídia, contatos e principalmente validar a sua ideia e ter feedbacks. Resolvemos que deveríamos migrar pra web com o objetivo de chegar onde queríamos. Fizemos esse trabalho até próximo da metade de 2011. Nesse meio tempo e logo após o lançamento conversamos pelo menos com 2 possibilidades de investimento, chegando a terceira dica:

Existe oportunidade de investimento no Brasil
Dizer que não é possível empreender no Brasil por falta de investidores ou recursos é algo que não é verdade faz muito tempo, cada dia existem mais oportunidades. Não é fácil um acordo de investimento, convencer um investidor de colocar dinheiro no seu negócio se torna mais difícil quanto mais inicial ele for. Os investidores vão analisar os empreendedores, o que já fizeram e estão fazendo, o mercado e o que se tem em mãos no momento. Aquele ppt lindo com projeções futuras e planos não vale muito pra não dizer nada. Não fechamos com nenhum investidor por não chegar a um acordo de valor, mas o importante foi conseguir despertar esse interesse(um deles veio nos procurar) e ver como funcionam as negociações e conversas.

Até a metade de 2011 fora o tuit.in eu estava com sócio de uma nova empresa de consultoria de Business Intelligence desde dezembro de 2010. Nunca trabalhei tanto nesse tempo e não aconselho  ninguém a tocar duas novas empresas, principalmente se elas necessitam muito da sua dedicação. Fiz uma reserva que me garantisse alguns meses e a partir de Agosto passei a ter dedicação total no tuit.in, que também trouxeram vários aprendizados:

Tempo/Dedicação dos sócios disponível
Dedicação plena ao negócio faz total diferença, tente se possível desde o início começar dessa maneira e com todos os sócios. Além de dar mais agilidade aos negócios, você consegue agendar mais reuniões, colher mais feedbacks, fazer parcerias, participar de eventos e tem sua cabeça pensando 100% no negócio. Infelizmente os outros sócios não puderam ter dedicação exclusiva devido ao momento que eles estavam passando, mas apenas uma pessoa com dedicação total já trouxe outro fôlego para o negócio. Conseguimos fazer a nossa primeira venda com menos de um mês, colher feedbacks, impressões das visitas, prospecções que fazíamos e já estávamos próximos de fechar parcerias e mais vendas. Percebemos novamente que não estávamos com os serviços adequados e público alvo adequado. As pessoas só entendiam nossos serviços quando apresentávamos pessoalmente e as vendas que estávamos fechando não eram com as agências de publicidade, até então nosso público alvo inicial. Precisávamos reformar nossos serviços novamente e aprender outra lição:

Não se contente apenas com as hipóteses iniciais de mercado, estude as alternativas
Como desde o início não tínhamos muito tempo disponível, principalmente no horário comercial não era tão simples validar as nossas hipóteses de demanda de mercado e público alvo. Os testes e conversas com o público alvo foi o que ajudou a definir o nosso produto inicial, víamos que havia interesse por parte das agências mas nunca nos questionamos se o interesse das empresas que já faziam marketing nas redes sociais seria maior. Então fica a lição de não validar apenas a sua hipótese principal e se empolgar para começar mas também validar as outras hipóteses e fazer um comparativo, mesmo que a hipótese principal se demonstre correta.

Além de perceber que precisávamos reformular nossos serviços já pelos idos de setembro/outubro de 2011 o mercado já havia mudado bastante e vários concorrentes já estavam no mercado brasileiro, o que dificultava ainda mais a nossa entrada no mercado e nos trazia mais uma lição:

Time to market e barreira de entrada
O nosso negócio havia uma baixa barreira de entrada e portanto era questão de tempo até que surgissem os concorrentes. Quando você entra nesse tipo de mercado você não pode errar muito e nem pode errar de forma lenta. Tivemos 2 erros de longo prazo que nos colocou numa posição complicada no mercado. O importante foi que ao longo do projeto começamos a perceber mais rápido a necessidade de mudança e a colocar em prática o conceito de menor produto viável ou MVP, pra quem já está familiarizado com o conceito de Lean Startup.

Para encerrar o negócio de vez aprendemos a nossa última lição quando o nosso servidor saiu do ar e não voltou mais por conta que o nosso HD havia tido problemas:

Backup é a coisa mais importante
Havíamos terceirizado o nosso servidor com uma empresa nos EUA, uma máquina dedicada para os nossos serviços. Fazíamos os nossos backups na máquina e nunca havíamos tido um problema do servidor sair fora do ar até então. Como era um servidor dedicado a empresa não guardava backup do HD em outras máquina e não havíamos parado para saber das políticas deles por conta de outros tantos outros problemas que tínhamos de encarar no dia a dia do negócio. Enviamos o HD para o Brasil mas o orçamento de recuperação dos dados inviabilizou a recuperação. Fica a lição de sempre ter backups em suas mãos, mesmo que a empresa terceira tenha uma política de backup. Felizmente no incidente não havia nenhum cliente pagando pelos nossos serviços e infelizmente estávamos próximos de fechar uma boa venda.

Bom, esses foram os pontos mais importantes que lembrei mas posso ter esquecido de algum, fique a vontade para perguntar pelos comentários ou pelo formulário de contato sobre a experiência que tive. Falhar não é ruim se ao longo do tempo você aprendeu algo. Aprendi muito nesse processo de colocar uma startup no ar e tenho certeza que as próximas tentativas serão bem melhor.

Update
Gostaria de fazer um agradecimento especial para Rodrigo Lobo e Bruno Marques, que sabem pelo que passamos e aprendemos, virando noites e ralando muito. Sem esses caras não seria possível esse aprendizado. Agradeço também todos que apoiaram e contribuíram de alguma forma durante a empreitada.